domingo, 9 de setembro de 2012

Homoafetividade e religião


Já dizia Aristóteles, Descartes, entre outros filósofos, o ser humano é um ser composto. Deus por sua vez é um ser simples, puro espírito, ou filosoficamente falando, ato puro. Nós somos uma mistura de corpo (matéria), alma (intelecto), e espírito (espiritualidade) e temos necessidade ou deveres para com cada parte. O corpo precisa de cuidados, uma boa alimentação, exercício físico, entre outras coisas. A alma necessita de cuidados e ela mesma os pede, quando crianças a necessidade do saber, as perguntas, os porquês, e ao longo da vida o processo cognitivo. O espírito não é diferente, também requer alguns cuidados, como a vivencia de uma espiritualidade, seja o credo que for, ou algo pessoal, nem sempre se dirigindo a um ser transcendente, pode limitar-se a busca pela perfeição em um âmbito humano, no cultivo de valores, da ajuda mutua, essas coisas que engrandecem o espírito, que dão sentido a vida, que retiram o vazio existencial.
Toda essa argumentação, para dizer que temos necessidade de algo maior do que nós mesmos. Mas na nossa condição afetiva, como encontrar espaço nos grupos religiosos? Será que Deus realmente abomina aquilo que sou? Por que teria Ele me criado então? São essas e inúmeras outras perguntas que me faço, hoje com menos frequência, pois partes delas já me estão respondidas. Sou Homossexual, e cristão. Como todos os outros dispostos a viver sua sexualidade não encontro espaço dentro de minha religião para conciliar a minha homoafetividade e a fé que tenho. E por causa disso simplesmente deveria eu jogar fora todo o resto da minha fé? Desacreditar de tudo que me faz ser eu? Não. Busquei entender os porquês, questionar a fé a torna mais profunda e verdadeira.
Pois bem, sou cristão por que sigo a verdade de Cristo, não por causa do pastor, do papa, do pregador. Então, o que Cristo não falou não me serve como ensinamento. Em toda sua vida publica Jesus nunca se preocupou em pregar contra a homoafetividade, logo não deveria ser algo tão abominável assim. Na bíblia a homossexualidade é citada como pecado, abominação, e outros adjetivos, em Levítico, Romanos, e alguns outros livros. Mas para entender essas passagens precisamos saber o que é a bíblia. Esta não passa de um registro histórico de um povo, tendo em seus ensinamentos toda uma carga cultural de um determinado povo.
Lev. 18,22 “Não te deitaras com um homem como se fosse mulher, isso é uma abominação.
Lev. 20,21 “Se um homem dormir com outro homem como se fosse mulher, ambos cometerão algo abominável. Serão punidos com a morte.
Levítico 10,18 condena igualmente o homem que dorme com a mulher no período menstrual. Levítico 20, 21 diz que se um homem tomar a mulher de seu irmão é amaldiçoado por Deus com a infertilidade.
Levitico 20,10 o homem e a mulher que cometerem adultério, devem morrer.
 E as condenações seguem, mas o que quero observar é que não são leis divinas, mas leis de um povo, de uma determinada época, cuja única que prevalece é a do homossexualismo, sendo imoral e digna do inferno.
Paulo em Romanos também escreve contra as relações homoafetivas, baseado nos escritos de Levítico. O que quero dizer é que sentimos hoje os resquícios de um preconceito antigo, de um povo mal informado, ignorante e amedrontado pelo diferente.
O antigo testamento esta repleto de leis ultrapassadas, modificadas, refeitas. Se a homoafetividade fosse algo condenável, digna de inferno, por que Deus nos fez homoafetivos? Por que Cristo não se preocupou em um de seus sermões falar sobre o assunto? Porque não há nada de errado conosco, não é errado amar, não é errado ser feliz, não precisa de cura quem não está enfermo. Sigo a lei deixada por Cristo, onde Ele resume toda lei, ‘amai-vos uns aos outros como eu vos amei’. Desejo com sinceridade que meus irmãos cristãos das diversas assembleias entendam que o amor de Cristo não exclui, não condena. Nos dias de hoje, nós homoafetivos somos os leprosos, que no antigo judaísmo eram tidos como pecadores e retirados do meio do povo, indignos de tocarem seus familiares e conviverem com os mesmos. No entanto Cristo os toca, e os cura, os cura do preconceito, os liberta, mostrando a sociedade da época que nada de pecaminoso existia neles. As igrejas nunca entenderão isso, mas se nós pudermos entender, teremos conformidade conosco mesmos, e paz de espírito, capacidade de alimentar o nosso ser espiritual sem revolta, e confusão. De frente para a religião dizendo que os opostos se atraem e pólos iguais se repelem, lembrando-me que o coração não é lei, não é limitado a regras, o coração é livre, não vê o sexo, vê a essência.

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